Ser escritor é uma necessidade

Para mim, ser escritor é uma necessidade. Antes de te dizer o que isso significa, preciso te contar que nunca tive uma vida, digamos, linear. Ao contrário.

ser escritor é uma necessidade
Florença, março de 2021

Em termos de carreira, por exemplo, sempre tive dúvidas sobre qual graduação escolher – ainda tenho (risos). Eu havia sido ótimo aluno tanto em disciplinas de exatas quanto em disciplinas humanísticas, então este não era um critério que me ajudava.

Comecei (e parei) três cursos: engenharia, sociologia e economia. Tinha 23 anos quando entrei no jornalismo (1989), mas não era o jornalismo propriamente o que me interessava. O que eu queria era ser escritor. E como alguém se torna escritor?

TRÊS ETAPAS

Simples. Você só precisa vencer 3 etapas: 1) não querer outra coisa a não ser tornar-se escritor; 2) aceitar que essa carreira tem pouco a ver com diplomas; 3) ter em mente que o tempo de “estudos” para virar escritor vai do nascimento à morte. Fácil, não?

Acrescente alguns clichês eternamente válidos: é imprescindível ler, reler, escrever e reescrever (tudo isso em doses cavalares). Mas sabe quando você se torna “veramente” essa tal coisa aí? Quando você sente que escreveu um texto que pode durar no tempo.

Então, o que significa ser escritor? Agora te respondo: ser escritor para mim é ter liberdade para compreender o mundo e a mim mesmo de um modo que está perfeitamente ao meu alcance. Minha linguagem reflete quem sou. Preciso de palavras tanto quanto de água, comida e amor.

ser escritor é uma necessidade
Com o mestre Assis Brasil e sua esposa, Valesca de Assis, em Gramado (2000)

Anos atrás, um diretor de escola de ensino médio me pediu para escrever um texto para os futuros vestibulandos (aspirantes a escritores), alunos e alunas de 17 anos. Escrevi o texto em forma de carta, como se estivesse me dirigindo diretamente aos alunos e alunas. Veja abaixo.

CARTA AOS ASPIRANTES

Leitores e leitoras:

Espero ser capaz de expressar com esta carta a minha gratidão por vocês curtirem os meus textos durante as aulas e por compartilhá-los.

Eu era já bem adulto quando optei pela faculdade de jornalismo mais pelo fato de estar encantado com a arte de escrever do que por qualquer outra coisa. Desde então não parei de escrever: crônicas, reportagens, ensaios, dissertações, teses, contos, romances. Por incrível que possa parecer, após três décadas de carreira, sinto que ainda não dei o melhor de mim.

Não é questão de entrega, não. Entrego-me ao processo de criar como se estivesse possuído. Os convivas sofrem com o meu alheamento. Quando plenamente imerso, tenho de me advertir até sobre a hora de comer. Afinal, de que adianta encher-se de arte/alma e esvaziar-se de corpo? [Risos.]

Cada mergulho criativo é uma experiência singular. O conhecimento sobre o fazer é cumulativo. Não há fórmulas nem enquadramentos. O que existem são modos de atingir. Arte é forma, não fôrma. Espera-se que tanto a maneira de fazer quanto o conteúdo sejam originais. Quem escreve, assim como quem pinta ou filma, está sempre em busca de algo novo (para si, pelo menos).

As ideias me ocorrem de maneira bastante caótica. Mas quando me coloco à disposição, elas surgem aos milhares. Então, a ideia que se tem da falta de ideia é um mito. Se você se puser em sintonia com a geração de insights, os insights vêm. Pode contar. Vêm, sim. O problema é outro: quem tem milhares de ideias não tem, na verdade, nenhuma. É nadar, nadar e morrer na praia. Por favor, evitem esse tipo de clichê sempre, combinado?

Estou convencido de que comigo funciona assim: agarro-me a uma (somente uma) ideia e provoco insights para que ela encorpe. Pergunto-me coisas aparentemente bobas como: qual a história? Quantos personagens ela terá? Qual o nome de cada um? O que acontece com cada um? Devo trabalhar com uma ocorrência simples que cria panoramas ou fatos de grandes proporções que iluminam uma experiência individual?

Entendo a demanda atual das pessoas por medidas concretas, diretrizes exequíveis, providências certeiras. Vivemos numa era tecnológica, não literária. Estamos longe do século 19, quando o romance era uma espécie de telenovela, ainda que para poucos (o analfabetismo era alto, na época). Se você, jovem escritor, por acaso tem esse tipo de demanda, anote uma dica: ajude-se, mas não dê bola ao falso conforto da autoajuda.

Claro que você precisa ficar atento ao que os bons escritores dizem ou escrevem, sem jamais se esquecer de que os bons escritores não necessariamente são os mais famosos ou os que vendem mais. Siga aqueles em cuja qualidade você aprendeu a confiar, ou aqueles que lhe foram indicados por gente confiável. Acompanhar a produção e o pensamento dos nossos pares é importantíssimo. Estudar também. Estudar literatura, sim, como não?

E enquanto acompanha e estuda você vai experimentando. Como já disse, cada experimento é um experimento. Até hoje não tenho clareza sobre a minha melhor maneira de trabalhar. Projetos narrativos já me ocorreram redondinhos, numa sequência lógica incrível, como num download. Outros surgiram em doses homeopáticas, empurrando-me para uma digestão longa, que não tem como ser medida em horas, meses ou anos. É a dimensão do tempo, que, se pensarmos bem, não se mede.

Dentro do possível, evito ao máximo a ansiedade (de ter ideias, de ter um projeto, de realizar o projeto, de publicá-lo, etc.). Se você olhar bem, verá que transito entre duas vertentes do mesmo Grand Canyon: a reportagem com requintes literários em que nada se pode inventar; e o romance ficcional, no qual tudo poderia, em tese, ser inventado e, no entanto, não o é. Entre o real e a invenção há mil nuances.

Publiquei mais textos jornalísticos ou ensaísticos que textos ficcionais, e isso é relativamente fácil de explicar, no meu caso: a “invenção” de uma história, para mim, é difícil. Mexe comigo por inteiro. Revolve-me as vísceras. Impõe-me certa irracionalidade. Tudo depende só e somente só de mim, entende? Isso para dizer-lhe o seguinte: deixe-se possuir pelo teu projeto, mas cuidado com a autocrítica excessiva.

Quando o projeto é de ficção, posso me sentar diante do computador com objetivos claros ou vagos, não importa. O ritmo da execução vai variar conforme o “calor”, os progressos e os retrocessos (trechos ou capítulos inteiros podem ir parar na lata do lixo). Mas uma coisa é certa: dificilmente produzo mais que vinte e poucas linhas aproveitáveis por dia. Mesmo assim, essas tais linhas nunca serão as mesmas nos dias seguintes.

Antes de partir para a segunda bateria de vinte e poucas linhas, reescrevo obsessivamente a primeira bateria. E assim por diante. Porque escrever, meus queridos, é, na verdade, reescrever. Conheço autores que juram que o que brota primeiro é o que fica. Duvido. Ou melhor, admiro, acho incrível, até. Mas comigo não é assim. Ao contrário, minhas primeiras investidas costumam ser aceitáveis em termos de coesão e de gramática, mas toscas do ponto de vista “artístico”.

Não estou sendo excessivamente autocrítico, não. É fato. Tanto que, quando releio as tais vinte e poucas linhas no dia seguinte, ou depois de amanhã, o que vejo são esboços, estudos, possibilidades, enfim, algo com uma energia potencial. Ah, isso nos leva a outra questão importante: qual a hora de parar? Quando um autor atinge a certeza de que seu projeto está terminado? Lamento se a minha resposta os decepcionará, mas é assim: eu sinto o ponto final. Como aqui, agora.

Sinceramente,

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